
- Sabe o que acontece com menino que desobedece e dependura no murinho do terraço?, esbravejou tia Mônica com seu pequeno João Marcelo, um dos caçulas da geração de netos Silva Araújo.
Hoje vovó Zinha fez 82 anos. Como acontece todos os anos, foi dia de reunir a família para botar o papo em dia. As coxinhas não têm o mesmo sabor, já que vovó não pode mais fazê-las. Mas basta olhar em volta para sentir que a energia não mudou. Estão lá tios, primos, pais, amigos – todos com o mesmo DNA.
Família grande tem essas coisas boas: é festa toda semana. E pra muita gente! No mínimo, 50 pessoas. Cervejinha, refri diet, uns salgadinhos... e muita gente falando alto. Os papos são sempre os mesmos: futebol, concursos públicos, política, fofocas parentais. E toma beijinho na bochecha!
É quase um ritual sagrado: ao centro, sempre a mesa dos mais velhos: vovô, vovó, as “tias”... É lá onde ficam os melhores salgadinhos, os refris mais gelados. É o lugar ideal para dar um alô a cada 15 minutos – até porque a companhia é ótima! No canto, os homens jogam bolinhas de papel nas crianças. Aliás, essa é uma ótima forma de reciclar as forminhas das empadinhas. Correndo de um lado para o outro, a nova geração dos Silva Araújo mantém acesa a vida daquele lugar tão sagrado: o terraço da casa da Vovó Zinha.
Ah, o terraço... o lugar construído para as celebrações, os aniversários. Foi lá meu primeiro aninho... e o vigésimo também. Um telhado colonial, cercado por um guarda-corpo, um banheiro e um quartinho para guardar as comidinhas. É tudo tão simples – e tão bom. Na minha memória, era um espaço tão grande... Ideal para correr, brincar de patins, esperar Papai Noel no Natal e guardar todo tipo de bagulho que ninguém queria em casa. Em resumo, é uma zona digna de família grande, ou Grande Família, como no seriado de TV.
Crescemos e o terraço parece ter encolhido. Ou será que é a família que dobrou de tamanho? Eu já não posso mais correr, mas me sinto representado pela nova geração de netos e até bisnetos. As mães correm atrás das crianças; os pais aproveitam a boa vida.
Sentado num cantinho, vejo a tia repreendendo o menino. Dá uma vontade de responder:
Sabe o que acontece com menino que desobedece e dependura no murinho do terraço? Cresce e carrega um montão de histórias desse lugar mágico.

Eu no meu primeiro aniversário...
26 anos depois, a cena se repete, agora com a companhia do Joaquim e Davi












