segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Rei e a velhinha de “quase 70 anos”

Há um mês, recebi uma ligação de Vovó Pilar informando que meu ingresso para o show de Roberto Carlos já estava comprado. Mas eu não pedi. Utilizando todos os seus poderes de argumentação, até chantagem emocional, fui convencido de que seria um absurdo uma velhinha de “quase 70 anos”, com problemas de coluna e sozinha na vida, ir desacompanhada ao show do homem que ela mais ama. Começava, então, uma grande preparação. Tudo era motivo para ela me ligar no trabalho com uma novidade em relação ao show. Até que, um dia, surgiu a notícia de que o Rei estava vivendo um novo amor. Veja o que ela disse...


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Além de “viver junto” com Roberto Carlos, vovó ainda planejava convencê-lo a trocar seu histórico apartamento no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, por uma casa em Belo Horizonte. De preferência em Santa Tereza ou na Floresta. Ela queria adicionar um novo capítulo à história da Cinderela. Bom mesmo seria viver feliz para sempre junto às montanhas de Minas (e perto da casa da Ivone).

No dia do show, o telefone tocou cedo. Era vovó querendo combinar a partida. A apresentação estava marcada para as 9 e meia da noite, mas o motorista – no caso, eu – viria buscá-la às 6 e meia. Era preciso chegar cedo para garantir um bom lugar. Fomos acompanhados pela Tia Dirce (que a vovó insiste em dizer que está quase fazendo 60 anos) e de uma amiga-fã (do Rei, diga-se de passagem) vinda diretamente do Vale do Aço.

No horário marcado, vovó desceu vestida de terninho azul, cor preferida do Rei, cabelos recém cortados, esmalte nas unhas. Adivinhe qual o perfume que ela usava? Roberto Carlos, de uma marca de cosméticos relativamente nova no mercado! A única coisa que ela não dispensou foi a famosa sacolinha plástica, afinal, ela tinha muita coisa para mostrar ao Rei, inclusive três porta-retratos especiais. Pela primeira vez, Dona Pilar mandou eu “acelerar” no caminho até o Mineirinho.



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Chegando ao Mineirinho, vovó esqueceu que tinha “quase 70 anos”. Correu para chegar mais rápido à portaria e garantir um bom lugar. A ansiedade era tanta que ela se sentiu no direito de ter prioridade na fila dos idosos. Isso mesmo, vovó furou a fila dos velhos, na maior cara de pau. Quase deitei no chão de tanto rir.

Foi só chegar às cadeiras que Dona Pilar tratou de fazer amizade com os vizinhos. Contou que era o décimo show de Roberto Carlos que ela assistia e que a emoção era tanta que ela teve de ir à farmácia, pela manhã, para tirar a pressão. Junto com a amiga, ela também mostrou os presentes que daria ao Rei. Fez tanto sucesso que várias pessoas tiraram fotos com ela. Virou pop star.

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Quarenta minutos passaram voando. Qualquer luz que acendia, técnico que passava no palco ou comercial no telão eram suficientes para que as milhares de mulheres que se apertavam no Mineirinho começassem a berrar. Logo as luzes se apagaram. Flashes pra todo lado. Hormônios femininos postos à prova, até que entra em cena o Rei. São tantas emoções...

A velhinha de “quase 70 anos” não resistiu aos encantos do falso grisalho e subiu na cadeira. Não sabia se cantava, dançava, agitava os braços ou segurava as sacolas. Naquele momento, vovó nem se lembrou que estava perdendo um importante capítulo da sua novela preferida. De repente, o Rei soltou mais uma de suas frases que causam frisson na comunidade cabeça de prata: “A felicidade até existe”. Adivinhe o que vovó respondeu? “Ela é você, Roberto”! O assanhamento era tanto que a blusa de vovó começou a se abrir, sem que ela sequer tocasse nos botões. Seria um sinal...

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“O cabelo dele é crespo, né”, comentou a amiga, para a fúria de vovó. “Não é lisinho, né, mas ele deve fazer uma visage pra ficar meio grisalho”. Dá para alguém me explicar o que é visage?

Foram mais de 20 músicas, milhares de gritos, milhões de suspiros. Roberto Carlos provou por A mais B porque é chamado de Rei. O mesmo sorriso, o mesmo olhar sedutor, a inquietude ao mexer no microfone. Ele é assim e o povo gosta.

Ao ouvir “Jesus Cristo”, a última música do repertório, vovó esqueceu do show. Era hora de partir para o ataque. Missão: chegar ao camarim de Roberto Carlos para lhe abraçar, tirar fotos e entregar muitos presentes.

A primeira tentativa foi convencer a moça do bar a lhe dar a pulseira de identificação, que garantia acesso à área restrita. Quarenta segundos de conversa e a santa moça tirou a pulseira azul, presa por um botão, e amarrou no braço de vovó. Fazendo “vista grossa”, o segurança a liberou.

Vinte minutos se passaram. A maioria do público já havia ido embora e a segurança começou a tirar as grades. Sem qualquer problema, fui vencendo as barreiras até chegar em frente ao palco, onde estava vovó e um monte de gente tentando convencer o segurança a liberar o acesso ao camarim (todo mundo acha que a decisão é do segurança). De repente, sem pensar e em silêncio, a velha de “quase 70 anos” encontrou uma greta da grade e conseguiu entrar nos bastidores do show. Os seguranças nem notaram, mas o público até aplaudiu a coragem da “senhora que sofre de pressão alta”.

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Duas horas se passaram. Sentei na cadeira ao lado do palco e lá fiquei à espera de vovó. Para um segurança que passava, perguntei:

- Você não viu uma senhora de roupa azul perdida lá dentro?
- Uma de cabelo branco e meio corcunda?
- Isso mesmo!
- Nossa, ela tá dando o maior trabalho lá dentro. Tá perguntando até o signo dos seguranças.
- E ela vai conseguir ver o Roberto?
- Ah, vai... Essa velha é danada!

Passava de uma da madrugada quando vovó saiu do camarim. Banhada em suor, agitada, com a respiração ofegante, ela parecia que havia deixado a guerra. Ao invés de falar de como foi o contato com o Rei, ela contava, como num roteiro cinematográfico, como conseguiu chegar lá.

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Com o terço nas mãos, vovó comemora. Missão cumprida!

Hoje eu vou dormir rindo com a pergunta que ela fez ao segurança: “Tenho cara da assassina?”. A velhinha de “quase 70 anos” deu um show de persistência e conseguiu realizar seu sonho. E o Roberto ainda se lembrou dela... Pelo menos na cabeça de vovó.

7 comentários:

Fátima disse...

Ei Rafa!
A vó Pilar é d+++. Uma verdadeira macaca de auditório. Muito bem documentado as estrepolias da vozinha. Gostaria até de ser companhia nela no show. Quem sabe, no próximo do RC.
Rimos até ao ler o texto. Ceci disse que a vó Pilar é vc no futuro. Vc tbém é cômico.
Fátima

Simone Araújo disse...

KKKKKKK........
Rafa, há muito eu não ria tanto. Foi divertidíssimo ver a "saga da Dona Pilar em prol do Roberto Carlos". Foram tantas as emoções que, pela primeira vez, ela não ocupou o Pai, gritando: "Jesus Cristo, eu estou aqui....."
Você foi um espetáculo à parte. Sensacional. Digno de um grande repórter que consegue alcançar os mínimos detalhes da emoção de um fã pelo seu ídolo. Parabéns, querido! Me senti duplamente orgulhosa: pela mãe e pelo filho. Vocês são demais!!!!! Amo vocês!
PS: Detalhes tão pequenos de nós dois: "a mamãe e a Rádio Globo", kkkkk..... foi outro delírio. Temos que mandar para a produção do Rei e para a Rádio Globo. Eles vão se divertir.
Gostei muuuuuuuuiiiiiiiiittttooooo!!!

Fernanda disse...

Se superou Rafa!!!Ficou muuuuito bom o texto e as filmagens,é claro!Eu e a Bela caímos na gargalhada.Tenho certeza de q a mamãe vai adorar tb!Bjos,primo querido!

Larissa disse...

SENSACIONAL!
Bem que você disse que essa história eu não poderia perder.Fato!
Mais um registro transbordando a emoção do momento.Isso que você faz não tem explicação!
E sua vó então!
Que figura!
Me diverti muito!

Elusa disse...

Oi Rafael! Nossa, sua avó parece ser ótima, muito divertida e alegre! Você contando sobre o show dá até para imaginar como foi! Grande abraço!

carolina darly disse...

Rafa!!!
Como sua vovó é danadinha!!!
Êta coisa boa ter uma vovó destas...
Muito bom...
Adorei os vídeos e como sempre todo o seu bom humor no texto que, como sempre, tem uma leitura prazerosa!
Beijos amigo querido!
Saudades!!!
PARABÉNS PARA SUA SUPER VOVÓ!!

Maria disse...

Rafa, há alguns anos qdo sua avó meu contou a paixão pelo Rei já me diverti mto, mas ao ver a saga dela para ver RC me diverti mais ainda. Ela é mesmo uma apaixonada por ele e vc um grande contador de histórias.
Bjus e mtas saudades de vc,
Amiga Maria.