sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Uai, eu tenho sotaque

Após quase dois meses enfiado no Vale do Piranga, tomando café com broa, comendo carne de porco fresquinha e ouvindo muita música sertaneja, volto para o asfalto com um sotaque muito mais carregado.

É incrível como a gente fala cantado, come as últimas sílabas, embola uma palavra na outra. Expressões como “uai”, “sô” e o famoso “graçazadeus” saem da boca antes mesmo de passar pelo cérebro – nem precisa de comando. Quando assusto, falei. Mas como na roça todo mundo fala igual, nem dá pra perceber o vício. Somos uns como os outros – gente muito boa!

Dessa temporada de trabalho por Catas Altas da Noruega, Piranga e Senhora de Oliveira, meu vocabulário ganhou duas palavras que não posso deixar de compartilhar com vocês: chicura e puladinha. A primeira, herdei da minha prima Claricinha, para nós, Cicinha, uma peça raríssima que é dona dos causos mais engraçados da região. Toda vez que a gente se encontra, ela tem que contar uma história. As verídicas são as melhores, até porque tudo na vida dela é uma comédia só. Outro dia, ao ver sua família na TV Globo, ela soltou esse palavrão. “Rafa, foi uma chicura só esse Terra de Minas, hem...” Cai no chão de tanto rir e meu vernáculo ganhou mais uma palavra.

(Chique essa palavra, né? Vernáculo... Aprendi com o pai da Flavinha, Iago, que adora uma palavra cruzada)

Já o Tião, Prefeito de Senhora de Oliveira, que é nota 10 no quesito educação e gentileza, certa vez me pediu para “dar uma puladinha” na praça para ver um projeto. Em fração de segundos, me imaginei feito um saci. Depois, entendi o recado: ao invés de perneta, eu deveria ter um pé gigante para ir num pé e voltar noutro. Muito mais simples. Na imaginação eu consegui fazer isso; na prática, corri mesmo.

Quando viajava para outros estados pelo Sempre Um Papo, todo mundo dizia do meu sotaque. Muitos elogiavam, falavam que dava um tom mais ameno para a palestra do escritor. Sempre agradecia, mas não gostava daquilo. Pensava que bom mesmo seria eu ficar sem sotaque como aqueles repórteres da TV Globo. Que bobagem... Hoje sei que bom mesmo é falar do jeito que a gente gosta, com as nossas verdadeiras raízes.

Tenho sotaque mesmo. E acho isso uma delícia!
Como diz a música: “nóis é jeca, mas é jóia”.

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