segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Dica de livro – Admirável Mundo Velho!

Passeando pela Leitura do BH Shopping no último sábado, fiquei alguns minutos namorando a capa do novo livro do jornalista Alberto Vilas, que tive a alegria de conhecer pelas minhas andanças no Sempre Um Papo. Gostei da capa, do título, corri o olho na orelha, viajei no sumário. Genial!. Tirei o escorpião do bolso (que não sei porque gosta demais de sair numa livraria) e comprei. Em casa, a rede da varanda foi o lugar ideal para me deliciar com essa gentileza literária.

Gentileza literária mesmo!

Alberto Vilas é especialista em viver o passado bom. Aquele que realmente “passa” pela nossa infância, deixa uma marquinha na memória e um tantão de saudade. É uma lembrança boa, daquelas que nem pensamos em levar para as sessões de terapia. Ela só aparece nos bons momentos – seja na mesa do bar ou na mesa de jantar da casa de nossos avós. Nesse “Admirável Mundo Velho”, o autor lista 100 expressões que estão caindo no esquecimento. Só de registrá-las em um livro já seria interessante. Porém, cada termo vem acompanhado de uma historinha do passado, bem no estilo mineiro.

Alguns desses “verbetes” ainda fazem parte do meu vocabulário de gírias idosas, mas outras surgem como novidades. Vovó Pilar deve saber todas e, com certeza, renderia um livro paralelo com suas próprias histórias.

Algumas palavras e expressões do livro que não saem da ponta da minha língua:

Fiquei encafifado (quando alguém fala alguma coisa com duplo sentido)
Quantas notas vermelhas você tirou? (esqueço que tudo agora é virtual)
Chá de cadeira (é o que tomo na maioria das vezes que vou à Dra. Marcela)
Com a pulga atrás da orelha (fico quando o sexto sentido aparece)
Jururu (homenagem à querida Ray)
Marmota (homenagem ao amigo Diogo)
Ir à casinha (lá na casa da Dona Sogra)
Prafrentex (já disseram que eu sou)
Benzadeus (é herança de família)
Tirar uma casquinha (isso é coisa de vovô Alaor)
Sossega leão (é o que a mamãe toma todo dia de manhã)
Bem bolado (vem sempre acompanhado de uma gargalhada do Silvio Santos)

Voltando ao autor, é impressionante como o Villas escreveu tanta coisa legal em tão pouco tempo. Em 2006, lançamos no Sempre Um Papo “O mundo acabou”, com textinhos sobre objetos que desapareceram. Gostei tanto que já presenteei mais de 10 amigos com um deles. E lógico que a mamãe roubou o meu. Ano passado, Villas compartilhou novamente suas lembranças em “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”. Ele só errou quando disse que o guaraná Mate Couro acabou... Mas ele merece desconto, afinal, mora em São Paulo há décadas e não tem mais o privilégio de tomar o “mate de mineiro” em qualquer botequim de esquina.


Sempre Um Papo, 2006. Eu tinha mais cabelo nessa época...

É... Museu tende mesmo a ser coisa popular no futuro. Com tecnologia e a tal de globalização as coisas tendem a virar passado com muita facilidade. Ontem mesmo aconteceram no mundo mais fatos relevantes que no ano inteiro de 1921 (chute total!). Pois é, se as máquinas nos ajudam a poupar tempo, onde foi parar o tempo que deveríamos ter ganhado? Não é que o Villas já está escrevendo um outro livro pra falar disso... Sai em 2010.

Acabou que indiquei quatro livros desse nosso escritor-nostalgia. Então, amigo leitor, ignore o título deste texto e substitua por “Saudade do lado bom da vida que passou”. Acho que vai ficar melhor.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Imagem da semana – Ele voltou!



Quase bati o carro hoje pela manhã. Passando pela Avenida do Contorno, um outdoor convida para o show de Michael Jackson. O quê? Ele voltou? Tudo bem, sabemos que ele ainda nem foi enterrado, mas daí convidar para um show... Ainda por cima junto com o Olodum...

Durante o intervalo do semáforo, deu pra tirar uma foto, que vai para a nossa galeria. Só analisando a imagem com calma é que a gente vê que trata-se de um tributo. Mas, para mim, soa bem como propaganda enganosa.

Será que vai ter algum gaiato que vai chegar ao Mineirinho para assistir ao show de Michael Jackson? Se tratando daquele homem que está congelado até agora, eu não espero mais nada.

Mais dois comentários:

- Aquele pai do Michael Jackson é o que podemos chamar de um belo pilantra... Coitados daqueles que precisam conviver com a peça...

- O show no Mineirinho tem o patrocínio da Furacão Ventiladores. Será que eles compraram a cota pensando no tributo ou também compraram gato por lebre achando que o astro da música pop viria como um vento??? Vento, furacão, ventilador... Se fosse verdade, seria um bom negócio.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Cidades invisíveis são a bola da vez

Em seu livro “A Máquina”, a escritora Adriana Falcão cria uma cidade de ficção, cenário para uma linda história de amor. Nordestina é um lugar onde ninguém quer mais ficar. A vontade de todos que estão lá é fazer como os outros – sair em busca de oportunidades. Lá longe, acreditam, o mundo deve estar acontecendo. Sem recursos, sem caminhos, sem incentivo para sair do lugar, não há outra saída se não justamente querer partir.

Nessa Nordestina do livro, Karina também quer fazer como os outros – conhecer o mundo “do outro lado da risca”. Porém, Antônio não se conforma. É possível encontrar uma outra saída para tudo aquilo que estava acontecendo. E, utilizando a comunicação, ele traz o mundo para aquela minúscula cidade, só para ver feliz o seu grande amor.

Eu não vou contar tudo, até porque o livro é imperdível, mas a história de “A Máquina” é o retrato fiel do que acontece na maioria dos municípios desse país. Tantos que nem cabem no mapa. São pobres, sem estrutura, mas com muita gente boa. Há quem estude e sonhe com um futuro melhor – mas longe dali. Assim como em Nordestina, sair é como descobrir um novo mundo – mágico – e que nós, aqui da Capital, sabemos que não é bem assim.



Faz muito tempo que me chama a atenção a história do povo de Catas Altas da Noruega, na região central de Minas. Com pouco mais de 3,5 mil habitantes, ela guarda uma história riquíssima, porém pouco explorada. Assim como na ficção do livro, muita gente saiu de lá em busca de oportunidades. E não voltaram. Foi assim com minha própria família. Como nos versos de Drummond, toda uma vida virou apenas um quadro na parede. “E como dói”.

Olho praquelas ruas e penso o que será de tudo aquilo no futuro. É preciso fazer alguma coisa pra mudar a essência daquele povo humilde. Deixa-los com mais auto-estima, até porque ali o progresso é possível. Chama-se turismo.

Mas como levar o turista para uma cidade onde falta água de vez em quando? Onde eles vão ficar? Onde vão comer? O que vão fazer lá? Quem vai guiar? São tantas perguntas imediatas que a gente até pensa em desanimar. Mas não pode. Todos os questionamentos pairam de forma circular – e sempre vão existir. Uma coisa é certa: a cidade tem potencial e vai conseguir se erguer. É a única solução.

Cada um tem que fazer a sua parte. A minha, enquanto jornalista, é convencer meus colegas a produzir reportagens que mostrem as belezas e as riquezas da cidade, não só para os turistas de fora, mas, principalmente, para os próprios moradores.

Em fevereiro, uma equipe da TV Globo ficou quatro dias em Catas Altas da Noruega. O simples fato de ver aquele carro cinza passar pelas ruas foi motivo pra chamar a atenção dos moradores. Todos perguntavam: o que era aquilo? O que a maior emissora de TV do país teria para mostrar daquela cidade, até então, sem nada? Chegaram a questionar o repórter: “vocês vieram para a cidade errada”. Não. Eles estavam ali para descobrir o que estava bem debaixo de nossos narizes e nossa “humildade” não nos deixava ver.

O programa deu resultados surpreendentes: muita gente apareceu querendo conhecer aquela “desconhecida” cidade. E o povo de lá teve que se mexer. O restaurante, que só servia prato feito, teve que construir um fogão a lenha para abrigar um buffet. Os moradores se mobilizaram para fazer da festa religiosa mais importante da cidade, também a mais bonita da história. A Prefeitura correu pra tapar os buracos da cidade e arrumar os jardins, além de se unir com outras cidades para potencializar o turismo na região. Minha vizinha da esquerda, Dona Clara, está reformando seu casarão do século 18. Ficou tão bonito, que a casa ao lado também será restaurada.

Aos poucos, como formiguinhas, estamos conseguindo mudar a cara da cidade e a cabeça de seu povo. O exemplo de Catas Altas da Noruega abriu portas e agora estamos desenvolvendo o mesmo trabalho em outras duas cidades vizinhas – Piranga e Senhora de Oliveira. A história se repete, até porque o diagnóstico é o mesmo: cidades invisíveis. Elas são a bola da vez.

Em “A Máquina”, Antônio levou o mundo à pequena Nordestina. Fez isso graças à mídia espontânea. A ficção nos serve de exemplo: estamos fazendo o mesmo para nossas cidades. Em pouco tempo, o mundo vai entrar em Catas Altas da Noruega para dar um passeio. Pelo menos, é o que estamos tentando. Faço isso em homenagem aos meus avós, que um dia insistiram em emancipar aquela pequena vila e, depois que conseguiram, se cansaram e foram tentar a vida em Belo Horizonte.

Quem sabe um dia eles voltam...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Uai, eu tenho sotaque

Após quase dois meses enfiado no Vale do Piranga, tomando café com broa, comendo carne de porco fresquinha e ouvindo muita música sertaneja, volto para o asfalto com um sotaque muito mais carregado.

É incrível como a gente fala cantado, come as últimas sílabas, embola uma palavra na outra. Expressões como “uai”, “sô” e o famoso “graçazadeus” saem da boca antes mesmo de passar pelo cérebro – nem precisa de comando. Quando assusto, falei. Mas como na roça todo mundo fala igual, nem dá pra perceber o vício. Somos uns como os outros – gente muito boa!

Dessa temporada de trabalho por Catas Altas da Noruega, Piranga e Senhora de Oliveira, meu vocabulário ganhou duas palavras que não posso deixar de compartilhar com vocês: chicura e puladinha. A primeira, herdei da minha prima Claricinha, para nós, Cicinha, uma peça raríssima que é dona dos causos mais engraçados da região. Toda vez que a gente se encontra, ela tem que contar uma história. As verídicas são as melhores, até porque tudo na vida dela é uma comédia só. Outro dia, ao ver sua família na TV Globo, ela soltou esse palavrão. “Rafa, foi uma chicura só esse Terra de Minas, hem...” Cai no chão de tanto rir e meu vernáculo ganhou mais uma palavra.

(Chique essa palavra, né? Vernáculo... Aprendi com o pai da Flavinha, Iago, que adora uma palavra cruzada)

Já o Tião, Prefeito de Senhora de Oliveira, que é nota 10 no quesito educação e gentileza, certa vez me pediu para “dar uma puladinha” na praça para ver um projeto. Em fração de segundos, me imaginei feito um saci. Depois, entendi o recado: ao invés de perneta, eu deveria ter um pé gigante para ir num pé e voltar noutro. Muito mais simples. Na imaginação eu consegui fazer isso; na prática, corri mesmo.

Quando viajava para outros estados pelo Sempre Um Papo, todo mundo dizia do meu sotaque. Muitos elogiavam, falavam que dava um tom mais ameno para a palestra do escritor. Sempre agradecia, mas não gostava daquilo. Pensava que bom mesmo seria eu ficar sem sotaque como aqueles repórteres da TV Globo. Que bobagem... Hoje sei que bom mesmo é falar do jeito que a gente gosta, com as nossas verdadeiras raízes.

Tenho sotaque mesmo. E acho isso uma delícia!
Como diz a música: “nóis é jeca, mas é jóia”.