domingo, 22 de maio de 2011

Tempo, tempo, tempo, tempo...

É engraçado... tem muita gente me falando que 24 horas do dia não têm sido suficientes para dar conta das tarefas. Faço coro aos que gostariam que o dia tivesse mais umas oito horas, talvez com tempo reservado obrigatoriamente para dormir, comer e se divertir.

Mas é a vida do futuro, dizem os mais práticos. É assim e pronto. Cabe a nós, simples mortais, organizar o tempo e ser feliz. Mas se fosse assim tão fácil... Somos filhos da “geração fazeção”. Quem faz mais, vale mais. Quem vale mais, merece mais. Quem merece mais, ganha mais. A “recompensa”, como diz um sábio amigo, só a mente inconsciente é capaz de saber. Nosso conhecimento filosófico é quase nulo para entender, pelo menos um pouquinho, os pedidos que fazemos ao tempo, como diz a música do Caetano.

O assunto foi parar na mesa de bar e nos consultórios psicanalíticos: onde foi parar nosso tempo? Na Europa, o passado não deixou de ser presente. Construções duraram anos, décadas, algumas séculos. Tudo sem a existência da tecnologia, no muque mesmo. Imagine quantas milhares de pessoas ajudaram na construção da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, projetada por Gaudí, que só ficará pronta em 2026. Mais de um século de obras. Existem pessoas que dedicaram a vida inteira a um só projeto, uma construção. E nós, no século 21, não queremos somente uma grande obra, mas várias. Pulverizamos os méritos, que agora devem ser diários, precisos e motivadores.

É um dia após o outro. Isso me faz lembrar uma passagem de Monteiro Lobato, escrita em 1936, em Memórias de Emília. Nele, a sábia menina dos cabelos coloridos explica a vida de uma maneira simples, porém profunda.

- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
[...] A vida das gentes neste mundo, Senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre? – perguntou o Visconde.
- Depois que morre vira hipótese. É ou não é?


No mundo de hoje, criamos hipóteses – e ainda vivos! Este texto mesmo é uma hipótese sobre o tempo e o futuro. E os dias vão passando, num emaranhado de piscadas. Piscadas ora com um olho, ora com os dois. Piscadas profundas, que as vezes não querem deixar os olhos se abrir. Momentos em que os olhos precisam ficar bem abertos, sem quase nunca poder piscar.

Piscar, resumindo a filosofia de Emília, é viver um dia depois do outro. E chegar em casa a noite, olhar a lua, sentir o frio da montanha e se orgulhar de ter escrito mais um capítulo de uma história que terá fim, só não se sabe quando.

Pra terminar essa filosofia de insônia, digna de alguém que não consegue ficar quieto nem mesmo na madrugada de uma sexta-feira fria, uma passagem de um outro sábio da literatura, João Guimarães Rosa. Ele, que postergou ao máximo a posse como imortal da Academia Brasileira de Letras, parece que previa a morte quando isso acontecesse. E ele morreu. Em suas andanças pelo Sertão, ele questiona a louquidão do mundo e, parece que prevendo, descreve o futuro, que hoje é presente:

Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem que necessitar de aumentar a cabeça, para o total.

1 comentários:

Palavras disse...

Oi Rafael,

Estou visitando pela primeira vez seu blog. Muito legal!

Sobre o texto, para mim que tenho insônia, um prato cheio!! Muito bom!
Escravos do tempo é o que somos, visitantes de nós mesmos, passageiros de algum trem...

Grande abraço

Leila Rodrigues